Há necessidade urgente de ações visando ao envolvimento de todos os núcleos de ensino, tais como universidades, escolas técnicas e centros de pesquisa, em programas competentes de capacitação das micro e pequenas empresas em todas as regiões do País. Desta forma se combaterá o alto índice de letalidade das empresas, mensurado pelo Sebrae em 32% de fechamento em menos de um ano; 44%, em menos de dois anos; 56%, em menos de três; 66% em menos de quatro e 71%, em menos de cinco anos. Até que ponto estas estatísticas estão corretas é difícil dizer, já que o Brasil tem um problema crônico quando se trata de pesquisas no campo econômico ou elas não existem, ou se existem, não foram feitas com o rigor necessário para que seus dados sejam 100% confiáveis. De qualquer forma, o índice de letalidade de empresas no Brasil nos primeiros cinco anos de existência se encontra entre os mais altos do mundo.
Os altos índices de desenvolvimento dos países orientais, particularmente Japão e Coréia do Sul, tem sido creditado à sua capacidade de “copiar” as ideias e bons produtos ocidentais e o seu investimento maciço em educação e aperfeiçoamento técnico. Com certeza foram, entre outros, talvez os fatores mais importantes para que despontassem na economia mundial da forma como despontaram. O Brasil, por suas características, quem sabe por possuir um dos povos mais criativos do mundo, nunca “copiou” muito bem. Pela baixa qualidade de sucessivos governos, seus investimentos na área educacional sempre se perderam e se exauriram no cipoal burocrático. No caso das micro e pequenas empresas nem uma coisa nem outra, nem “copiamos” o que outros países fazem na área de aprimoramento do segmento, nem investimos adequadamente na nossa educação de base, com exceção em parte do trabalho feito pelo ministro da Educação Paulo Renato Souza no governo Fernando Henrique Cardoso. Ainda assim, acreditamos que muito mais poderia ser feito e esperamos que o novo governo o faça.
Para mostrarmos o que um governo pode fazer quando real. mente deseja e o que isso pode significar, deveríamos conhecer, por exemplo, o que tem sido realizado na Alemanha. Ainda em 1985 havia na República Federal da Alemanha 322 centros para formação profissional complementar à empresa, mantidos pela organização do artesã nato alemão. Artesão na Alemanha corresponde a um misto de micro empresário e autônomo brasileiro. Nessas instituições de formação profissional havia 50.000 vagas nas oficinas de aprendizado. Nelas, quase todos os aprendizes recebiam a chamada instrução complementar, que compreendiam cursos de currículo idêntico em todo o País que forneciam conhecimentos e habilidades profissionais complementares. A formação profissional na República Federal da Alemanha, que até então ainda não tinha vivido a “queda” do muro de Berlim, era baseada num sistema dual: o aprendizado na empresa e o aprendizado complementar, feito na escola profissional. Nesta fase, havia uma grande polemica, pois se reconheciam “problemas durante o aprendizado na empresa”. Muitas delas não estavam em condições de transmitir os conhecimentos exigidos pela legislação do currículo profissional.
Considerando estas possibilidades, a contar da década de 70, passou a existir a formação complementar à da empresa, eliminando deficiências e possibilitando aos artesãos receberem a chance de se adequarem aos métodos mais modernos de trabalho. Na época, o “Butzweiler Hoff”, na periferia da cidade de Colônia, era um dos mais importantes centros para formação profissional complementar à da empresa. Existiam 800 vagas de aprendizes para 45 dos 125 ofícios de artesanato. Ali, havia 49 oficinas de aprendizado, sob o severo controle dos mestres. Nestas oficinas se ensinava a construir muros, pintar paredes, aplainar, entalhar, serrar, lidar com aparelhos eletrônicos e trabalhar com os mais diversos materiais.
O ramo da construção civil era um dos principais, com 15 profissões definidas. Por exemplo, os aprendizes de pedreiro quase não tinham tempo de aprender técnicas complicadas como murar arcos e fazer abóbadas na formação ministrada pelas empresas. Os aprendizes de carpinteiro aprendiam a construir, sob sua livre escolha, tablados de xadrez e outros jogos, porta guarda-chuvas, castiçais e pequenas caixas um trabalho bonito, limpo e feito com precisão. A ordem era, “o trabalho deve ser feito com criatividade”. Nas oficinas de metalurgia, as ferramentas e equipamentos mais modernos estavam à disposição. tornos universal – CNC computadorizados, com duas memórias e fresadores – furadeira universal – CNC. O mais moderno significava estar “à Prosperidade Reprimida
Bente dos outros. A mesma filosofia nas oficinas de eletrônicas, onde aprendiam desde os princípios da eletrônica até operar microcomputadores, visando ao melhor desempenho possível na manutenção de máquinas de escritório e na atividade profissional exercida. O objetivo era intensificar esforços na formação de jovens “artesãos” na certeza de resultados compensadores: o alto nível da formação resultaria num atrativo para um número cada vez maior de jovens, com o pensamento ave “nenhum mestre artesão cai do céu”. A procura era por uma formação sólida, que transmitisse eficiência e conhecimento à futura profissão tendo em vista também a concorrência da formação profissional universitária, resultando daí ser muito importante o papel das instituições de formação fora da empresa – onde também se aperfeiçoavam aprendizes e mestres.
É importante a análise destes dados sobre o esforço do governo alemão na formação dos seus jovens em 1985, e comparar com o que vem sendo feito no Brasil em 2003, porque só assim podemos ter noção do “descaso” com o micro e pequeno empresários brasileiros. Temos que entender que o artesão alemão é preparado para trabalhar por conta própria, constituindo empresa e empregando também algumas pessoas. Nos centros de formação profissional, aprender o ofício é parte do aprendizado, grande fatia do esforço é dedicada a questões administrativas, financeiras, mercadológicas, preparando-o da forma mais completa possível para atuar no mercado.
O esforço para formar artesãos também vinha da certeza do governo alemão de que a indústria, que na Alemanha é o setor com a maior fatia do PIB, com sua produção em massa, fomenta cada vez mais uma reação crescente a tais produtos e um retorno a antigos valores é a valorização do personalizado, da sua marca, do diferencial, impossível de ser obtido numa economia baseada somente na produção em massa. O que se via na Alemanha, e hoje mais do que nunca no mundo inteiro, eram habilidades artesanais já tidas como esquecidas que voltaram a ser procuradas como hobby ou trabalhos domésticos. Por exemplo, naquela época, na Alemanha, a profissão de ferrador, antes quase esquecida, voltava com força. A equitação virara mania como esporte popular, e em pouco tempo fez florescer 11.000 ferrarias em toda a República Federal da Alemanha. O mesmo pode se dizer dos equipamentos de equitação. Outros hobbies como jardinagem, silvicultura, agricultura familiar, provocaram uma “explosão” na demanda de pequenas construções metálicas (viveiros, estufas, armações), recipientes e equipamentos diversos para uso em pequeníssima escala (no terreno em volta da casa), multiplicando pela Alemanha as “oficinas de ferreiro”, no Brasil chamadas “serralherias”. Na área da construção civil, a recuperação de antigas técnicas de construção se revestia de grande sucesso. A cobertura de casas com teto de palha ou junco, como se fazia há séculos, ou com pequenas telhas regulares de madeira, tornavam importante novamente a profissão de “telhador”. Uma curiosidade foi o ressurgimento da profissão de artesão especialista em “bate-folhas” de ouro, prata e alumínio, profissional que se encarregava de recobrir corrimões, testeiras, molduras de quadros, pequenas estátuas, detalhes de móveis diversos, etc. Um exemplo clássico de profissão que praticamente sumiu e na década de 70 voltou com força, devido à crise do petróleo, foi a do construtor de aquecedores revestidos de azulejos. São aquecedores grandes que tem dupla função, como peça de decoração e fornecedor de calor. Eram aquecedores construídos desde o século VIII, que conforme seu revestimento refletiam a influência cultural de uma época. No Renascimento, eram profusamente ornados, com relevos e figuras nos azulejos normalmente em tons verdes ou marrom escuros. Mais tarde surgiram os azulejos de colorido variado e revestidos com cornijas bem salientes, e assim por diante, sempre refletindo momentos da cultura alemã. A chegada ao mercado dos aquecedores a óleo centrais e dos instalados no interior do piso, mais “limpos” e cômodos, simplesmente “varreu do mapa” no final dos anos 50 os tradicionais aquecedores. Com a crise do petróleo em 1974, a necessidade e o medo de outra crise similar fizeram ressurgir a procura por esses aquecedores e tão rápido quanto o ressurgimento da demanda, os centros de formação passaram a preparar novos artesãos. Já em 1985 havia 150 fabricantes de aquecedores, produzindo 5000 tipos de azulejos de diferentes formas e estilos. Também já existiam 1500 oficinas de construção desses aquecedores.
O apoio do governo alemão provocou uma autêntica revolução, que não se deu somente apoiando a formação dos artesãos. Programas de promoção do trabalho destes fabricantes também eram uma constante. Na Feira Internacional do Artesanato de 1984, estava lá o stand especial “O artesanato antigo em mãos jovens” mostrando o renascimento de artesãos de tecelagem, movelaria, carruageiros e outras antigas profissões já tidas como mortas, inclusive, com técnicas antiquíssimas redescobertas. Um dos tecelões, por exemplo, apresentava uma antiga técnica, redescoberta durante a renovação de um tecido bizantino. Outro artesão apresentava instrumentos musicais que só podiam ser vistos em museus. Era a vitória da habilidade e da criatividade sobre a uniformidade, a produção seriada. Ainda como forma de promoção, o governo alemão cuidava de promover o seu artesanato espalhando pelos escritórios alemães no exterior, em lugares de destaque, peças representativas que serviam e ainda servem de promoção e divulgação do “Made in Germany”. Produto bastante divulgado nas embaixadas as cerâmicas artesanais contavam na época mais de 600 oficinas produzindo com oleiros e ceramistas autônomos cada um deles mantendo seu estilo individual e caracterizando-se por formas artísticas inconfundíveis. Outra feira onde os artesãos alemães, principalmente os ceramistas, apresentavam suas obras, era a Feira de Hanover na exposição especial “Boa Forma”. O respeito ao trabalho do artesão alemão repetindo, o equivalente ao micro empresário brasileiro vai do conceito que o mesmo goza perante as autoridades locais. Para estas vale o que Walter Gropius, fundador da “Bauhaus” disse em 1911: “Entre o artista e o artesão não há diferença essencial. O artista é um aumentativo do artesão. O conhecimento básico de um ofício representa um fundamento indispensável para qualquer artista, ele é a principal fonte da criatividade para as formas e figuras”.
A grande integração que o trabalho das autoridades alemãs procurou promover era entre os artesãos e a grande indústria alemã. A cooperação entre um e outro era, e ainda é mais do que nunca, cada vez mais estreita. O artesanato passou a ser o fornecedor de agregados e peças em muitos ramos da indústria de acordo com suas necessidades, assumindo serviços de montagem, revisão e manutenção de equipamentos. Acompanhando este processo o Ministério da Economia criou um programa de fornecimento, que concedia às pequenas empresas artesanais a possibilidade de receberem consultoria e aprenderem tecnologias que permitissem um baixo consumo de energia, insumo sempre caríssimo na Alemanha. Ainda na busca da integração, procurando abrir novos campos de cooperação com a indústria e atendendo a necessidade de artesanato para o acabamento de seus trabalhos, muitos produtos industriais como matérias-primas e semiacabadas, máquinas operatrizes e equipamentos técnicos, tinham seu fornecimento facilitado, reforçando a integração entre ambos os segmentos.
Em 1985, a Alemanha contava com quatro milhões de artesãos ativos, que faturavam anualmente cerca de 370 bilhões de marcos, representando a segunda área mais importante da economia da República Federal da Alemanha. Naquele ano o país contava com 695 mil aprendizes, vistos de forma cada vez mais popular dentro do conceito de que é a pessoa e não a máquina o seu ponto central”. No esforço do governo havia também a intenção de acabar com a ideia de profissões de domínio dos homens”, ou seja, eliminar os preconceitos contra as mulheres nas “profissões não femininas”. Esta situação fazia parte da cultura alemã, tanto que durante o período de domínio do Partido Nazista na Alemanha, a mulher era incentivada a não ter atividades profissionais, se reservando ao papel de mãe dos filhos do III Reich. Portanto, os experimentos modelo nas câmaras artesanais, demonstrando serem as moças totalmente aptas a completarem com sucesso os cursos de artesanato técnico, se revestiam de especial importância para o futuro da economia alemã. Profissões como pintor de paredes, telhador, carpinteiro, mecânico de automóveis, instalador, etc. passaram a ter a participação crescente de mulheres. Este esforço em prol do “sexo fraco” fez com que a presença feminina aumentasse sensivelmente nos 125 ofícios artesanais disponíveis, com sucesso crescente nos exames das chamadas “profissões masculinas”. Em 1983, por exemplo, passaram no exame para oficial artesão 1.009 pintoras, 940 carpinteiras, 159 mecânicas de automóveis e 22 telhadoras. Dos 1.475 mestres formados naquele ano, 175 eram mulheres.
Os quatro milhões de artesãos alemães se dividiram em cerca de 500 mil estabelecimentos artesanais. Cem mil operavam com aproximadamente 50% de sua capacidade de produção para a indústria, significando 1,2 milhão de pessoas empregadas e 42 dos 125 ofícios artesanais. Outros 27 ramos do artesanato trabalhavam no campo de prestação de serviços para a indústria. Já na época as empresas artesanais forneciam para a grande indústria formas de acabamento para plásticos, aço, borracha, anéis graduados, placas e matrizes, peças especiais até mesmo para a indústria aeronáutica, sempre produzidas em empresas com 5, 10, 15 empregados trabalhando com a família do proprietário, normalmente o artesão mestre. A lógica é “Não fazemos produção em série, a maior parte de nosso acabamento é feito de maneira artesanal”. “Aqui cada um representa o papel de um músico numa orquestra: todos são importantes”. Para a indústria, a flexibilidade do artesanato foi e continua sendo de grande valia, e percebendo isso na época, o Governo Federal em Bonn criou políticas de desenvolvimento mediante incentivos redobrados às pequenas e médias empresas, no sentido de se interrelacionarem com afinco às Câmaras de Artesanato, que aqui no Brasil poderiam ser chamadas Câmaras de Micro empresas. Houve um tempo no qual se receava que as empresas artesanais tivessem que ir cedendo paulatinamente lugar à indústria. Era a velha defesa do Fordismo, da produção seriada, que acabou por mostrar-se infundada. Já em 1985, ficava claro para toda a Europa e América do Norte, que ambos os ramos, o artesanato (micro empresa) e a grande indústria são interdependentes. Isso também porque as técnicas modernas estavam sendo cada vez mais utilizadas nos estabelecimentos pequenos e médios e estas técnicas à medida que iam surgindo iam sendo incluídas na formação profissional dos artesãos. A consciência do governo alemão na época se mostrou absolutamente correta, é que no futuro estas técnicas teriam seu desenvolvimento ainda mais acentuado, mudando rapidamente a antiga imagem do artesanato. A Federação Central do Artesanato Alemão fomentava objetivamente a cooperação entre a indústria e o artesanato, tanto que nas Câmaras de Cooperações Artesanal existiam os “Centros de Contatos Artesanato-Indústria” que registravam os estabelecimentos artesanais e seus serviços, aconselhando-os à cooperação com a indústria e promovendo o contato entre ambos. Um dos grandes instrumentos de promoção desse relacionamento são as feiras alemãs. A Feira de Hanover foi e continua sendo um dos locais preferenciais para se obter informações e fazer contatos, onde todos os anos os fornecedores artesanais divulgam seus trabalhos, não somente para a Alemanha, mas para o mundo.
Hoje, a Alemanha exporta perto de 700 bilhões de dólares por ano, seu PIB é de aproximadamente dois trilhões e quatrocentos bilhões de dólares, com uma renda per capita de 29.210 dólares para uma população de 81,9 milhões de pessoas. É o terceiro maior PIB do mundo, só atrás dos Estados Unidos e Japão. Os estabelecimentos artesanais, a pequena e média empresas, devido à sua flexibilidade e competência, tornaram-se cada vez mais importantes para a grande indústria na solução dos problemas técnicos e na prestação de serviços, tornando-se parte fundamental e indissolúvel no atual estágio do desenvolvimento alemão.
O exemplo da Alemanha se reveste de especial significado, porque o ano de 1985 foi o primeiro ano de vigência do Estatuto da Micro Empresa a nível Federal e nós estávamos nos esforçando, tentando convencer governadores e prefeitos a fazer o mesmo. Em nossas entrevistas, correspondência, palestras, seminários e congressos não somente Clamávamos pelo Estatuto em seus níveis Federal, Estadual e Municipal, como procurávamos chamar a atenção das autoridades no tocante ao investimento necessário para que nossas escolas técnicas, universidades, estabelecimentos de ensino não excluíssem a micro e pequena empresas por puro preconceito, que, ao contrário, the dessem o devido valor e investissem no segmento, a exemplo de outros países. Os dados referentes ao que acontecia na Alemanha em 1985 não são uma novidade no Brasil. Nós começamos a apresentá-los em 1985, transcrevendo-os e citando-os em todas as oportunidades possíveis, tanto na base, nas reuniões de formação de novas associações, nas oportunidades em que nos entrevistávamos com grandes empresários, mas principalmente com as autoridades, prefeitos, secretários, deputados, governadores, senadores, ministros e presidentes. Sim, presidentes, e é possível nominá-los. Presidente José Sarney e seus ministros José Hugo Castelo Branco, da Indústria e Comércio; Paulo Lustosa, da Desburocratização; Jorge Bornhausen, da Educação e Almir Pazzianoto, do Trabalho; depois, a todos os mais importantes candidatos a presidente nas eleições de 1989, tanto que o eleito Presidente Collor de Mello, ainda em campanha, enviou carta para os micro e pequenos empresários do Brasil inteiro prometendo atenção “especial” e citando estas políticas. A realidade é que se nem regulamentamos ainda os art. 170 e 179, seria surpreendente que em nossas escolas e universidades agíssemos com mais visão, mais respeito ou mesmo pragmatismo em relação ao segmento. Hoje, pode-se afirmar que nenhuma escola técnica e nenhuma faculdade prepara seus alunos para dirigirem pequenas e micro empresas; sabemos de um bom trabalho liderado pela prefeitura de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, em São Paulo, no incentivo ao espírito empreendedor e mais nada. Quando nos referimos a treinamento e preparação dos micro e pequenos empresários, não estamos falando dos cursos de pequena duração do Sebrae, que estão a grande distância em relação ao que é desenvolvido pelas Câmaras de Artesanato Alemãs, mas sim à verdadeira preparação para que um empreendedor iniciante possa ter sucesso. Nós podemos afirmar que nossas Escolas Técnicas, nossos cursos profissionalizantes de ensino médio, o sistema que engloba as escolas do Serviço Nacional da Indústria (SENAI), Serviço Nacional do Comércio (SENAC) e o Serviço Nacional da Agricultura, não preparam seus alunos para dirigirem pequenas empresas, quando muito ensinam um ofício. Nossas universidades não são diferentes, no máximo dão noção para administrar ou atuar numa estrutura administrativa de grande porte, mas não têm em seu currículo, a não ser por rápidas pinceladas, matérias específicas para as pequenas unidades produtivas. Trocando em miúdos, o recém formado em administração de empresas na Fundação Getúlio Vargas, por exemplo, uma das faculdades mais prestigiadas do país, é provável que será um profissional com grande utilidade para uma Companhia como a Vale do Rio Doce. Mas se lhe for dada a administração do recém inaugurado Bar e Restaurante “Zé das Quantas”, com dez funcionários, terá grandes chances de levar o empreendimento à ruína nos primeiros dois, três anos de funcionamento. É frequente observarmos o desânimo de pais que bancaram todo o estudo do filho até à formatura ao descobrirem que quando o garoto retorna e assume os negócios do pai, normalmente uma micro, pequena empresa, pouco ou quase nada se aproveita do seu aprendizado, a não ser o orgulho, o status de dizer que tem curso superior. isto é um desperdício de tempo e energia monumental, desculpável em uma nação rica que tem recursos sobrando e pode se dar ao luxo de acumular” diplomas, até visando ao aprimoramento intelectual. Mas num país como o Brasil, onde o novo presidente Luíz Inácio Lula da Silva anuncia como prioridade acabar com a fome e ainda descobre que mal tem orçamento para isso, é inconcebível. Toda a nossa estrutura educacional está voltada para formarmos trabalhadores para departamentos públicos ou empresas de grande porte. A nossa realidade é algo em torno de quatro milhões de empresas formais, das quais 99% são micros e pequenas, e 10 milhões de informais, esta é a base da nossa economia que não podemos de maneira nenhuma ignorar. Deveríamos lazer o dobro do que fazem Europa Ocidental e América do Norte em apoio e suporte aos pequenos empreendimentos. O elevado grau de letalidade das micro e pequenas empresas no Brasil tem tudo a ver com o despreparo dos pequenos empreendedores. É comum este despreparo e é só sair nas ruas e conversar com nossos pequenos comerciantes, prestadores de serviço, pequenos industriais para confirmarmos isto em praticamente todos os campos. A maioria absoluta não sabe fazer cálculo de custos, por exemplo. Operam sua política de preços com base numa vaga referência aos preços da concorrência. Não sabem a diferença entre uma duplicata simples de uma já descontada ou de uma caução. Com certeza, constituem-se na maior vítima da justiça do trabalho (98% das ações trabalhistas são contra empresas de pequeno porte). Perdem a maioria absoluta das ações, não por desonestidade, mas por despreparo. Não conhecem simples regras mercadológicas, não sabem se promover, são incapazes de desenvolver um bom marketing para seus produtos. Suas vantagens competitivas estão na superjornada de trabalho dez, doze, quatorze horas por dia e muitas vezes sete das por semana, num contexto de participação da família, no qual não existe pelo menos para os membros familiares salário fixo, férias, 13º, nem registro em carteira. Boa parte de sua comercialização se dá informalidade, quase tudo é feito no espírito do “improviso”, do aprendizado prático do dia a dia evitando repetir erros que muitas vezes “fatais”.



