Quem é o Micro e o Pequeno Empresário a Origem do Preconceito

Quem é o Micro e o Pequeno Empresário a Origem do Preconceito

Se houvesse uma pesquisa com objetivo de traçar o perfil de micro e pequeno empresários do Brasil creio que ela confirmaria, em primeiro lugar, que 99% deles têm no máximo o ensino médio completo. Confirmaria também que este empresário é extremamente trabalhador, capaz de trabalhar de segunda a segunda e que o faz com frequência, 10, 12, 14 e até 16 horas de batente por dia. Também mistura a pessoa física com a jurídica, não costuma participar de manifestações de qualquer ordem, principalmente manifestação política; não acredita muito em treinamento, tem uma relação com seus funcionários que transcende a relação empregado/patrão, sente-se explorado pelas autoridades, pelo governo como um todo, tem medo da polícia, da justiça, principalmente da justiça do trabalho e da fiscalização. É um cidadão que vive um equilíbrio perigoso entre a legalidade e a informalidade. No entanto, é responsável por quase 4 milhões de empresas formalizadas e pelo menos 10 milhões de empresas informais.

Que universo é esse? Que classe é essa? Por que, embora neguem e façam discursos de defesa do segmento, de prático os governos que se sucedem nada fazem pelo micro e pequeno empresários? A resposta está principalmente no fato da pouca instrução e na característica descrita acima, a de que ele assume uma postura independente e voltada para o seu negócio, que é o seu mundo. Ele faz tudo, compra, vende, paga, contrata, limpa. Tudo depende dele. Este empresário tem dificuldade de confiar, até porque nas vezes em que confiou, acabou decepcionado. Desta forma, ele acaba não sendo respeitado politicamente, porque não dá o retorno que a classe política gostaria de receber. Não temos notícia de algum sucesso político, de algum companheiro em todo o Brasil, seja porque partido for, que tenha sido eleito com base na bandeira das micro e pequena empresas.

Os médios e grandes empresários, embora participem também pouco da organização social e política do País, costuma contribuir financeiramente com as campanhas, obtendo com isso mais espaço e atendimento para suas reivindicações. O empresário de grande porte é visto como um vencedor, como um homem de sucesso, como um exemplo para a maior parte da sociedade. Esse mesmo sentimento não existe em relação ao empresário de negócios pequenos, e isso no caso brasileiro tem muitas explicações. Algumas delas estão na sua falta de cultura e na sua personalidade individualista. Para o trabalhador de nível médio ou superior, que trabalha há 20 anos numa grande empresa, às vezes se torna insuportável ver aquele vizinho que só tem o primeiro grau, que nunca leu um livro, que fala um português cheio de erros, construir um patrimônio bem maior que o seu. Na cabeça dele não importa que de cada mil que iniciaram atividades por conta própria somente um cresce e faz sucesso. Nas próprias associações comerciais e industriais muitas vezes acontece isso. É frequente os médios e grandes empresários serem representados nessas associações por funcionários, normalmente membros da diretoria, e é normal essas pessoas, que nem proprietários das empresas são, apresentarem restrições a posicionamentos políticos que tenham que ser tomados na entidade a favor de pequenas e micro empresas. O próprio Cebrae, quando iniciamos a organização do movimento de micro e pequenas empresas, tinha resistência ao segmento da micro empresa, concentrando esforços na média empresa. Isso se deu por muito tempo, causando discussões ásperas em várias reuniões e encontros.

Algumas entidades religiosas também tiveram sua parcela de culpa nesta “resistência” mais forte contra o micro empresário e quem sabe ainda tenham. Ao pregarem de forma mais veemente que seus fiéis levem uma vida pautada no desapego material criam um choque contraditório na cabeça do micro e pequeno empresário, normalmente frequentador destes encontros religiosos. Como ele vai trabalhar no seu negócio se não tiver o lucro por objetivo? Como vai disputar o mercado e espaço se quem lhe dá amparo espiritual lhe diz que está errado, ou lhe dá insegurança? Na própria bíblia, encontramos algumas palavras de Jesus que dizem respeito ao assunto e confirmam esta visão: “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que permanece até a vida eterna.”; “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e arruinar sua própria vida?”; “Aquele que quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também o manto, e se alguém te obriga a andar uma milha, caminha com ele duas. Dá ao que te pede e não voltes as costas ao que te pede emprestado.”; “Não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupara consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal.”, “É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino de Deus”

Imaginem o enorme conflito de consciência do micro empresário normalmente pessoa simples, e de sua família, ao ouvir estes sermões. Nós testemunhamos casos nos quais uma doença grave da esposa foi considerada “castigo de Deus” porque o seu negócio estava prosperando muito. Se a própria família sente-se “culpada”, é possível imaginar o sentimento da comunidade em relação a este empreendedor É a relação com o “pecador”, a relação entre explorador e explorados. Esse antagonismo ficou evidente durante o Plano Cruzado. Com os preços congelados, estes estabelecimentos de pequeno porte eram especialmente observados pelos “Fiscais do Sarney”, numa relação que baseava muito mais numa espécie de ódio, vingança, indignação do que numa real tentativa de evitar a alta dos preços. Podemos afirmar que houve uma lenta evolução desse quadro nesses últimos 20 anos. Na época em que começamos a organizar o movimento do setor, o preconceito era muito maior do que é hoje. O aumento da escolaridade tem sido o maior responsável pela melhora. O pequeno empresário mais bem preparado é mais sociável, tem mais consciência da necessidade de trabalho em conjunto, é mais suscetível aos programas de treinamento e melhor aceito pela sociedade. Aquele trabalhador graduado aceita com muito mais facilidade o sucesso de um engenheiro civil, por exemplo, dono de uma pequena loja, do que o sucesso de um vizinho com baixa escolaridade. Os casos de maior preparo intelectual são ainda raros. Estamos longe de uma situação ideal, embora multiplique-se hoje em dia o número de pequenos empresários com no mínimo o ensino médio completo.

Leia Também

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *